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Abividro

Presidente terá desafio de recuperar planejamento energético e deter preços

24 de Setembro de 2026 – Reportagem originalmente publicada em: Folha

O próximo presidente vai precisar resolver um paradoxo no setor de energia. O Brasil avança na transição e ampliou fortemente a oferta de renováveis, que têm custos cada vez mais baixos. No entanto, convive com cortes de produção de eletricidade e aumentos na conta de luz.

Também não tem infraestrutura para usar gás natural no lugar de fontes mais poluentes, muito menos escalar o consumo de biocombustíveis.

Especialistas dizem que a situação é crítica em alguns segmentos, e a raiz da distorção está na perda da capacidade de planejamento em uma área estratégica para o desenvolvimento econômico.

Há um consenso entre os técnicos de que as decisões na área de energia como um todo — que reúne eletricidade, óleo e gás, biocombustíveis — passaram a ser tomadas de forma fragmentada, fonte a fonte, setor a setor.

Também atendem muito mais a lobbies pontuais, sem considerar o efeito sobre o custo para o consumidor, o impacto para o desenvolvimento econômico interno ou a competitividade do Brasil.

O desarranjo é generalizado, afirma a diretora-executiva do Instituto E+ Transição Energética, Rosana Santos. Mas, segundo ela, o segmento que mais sofre é o setor elétrico.

O país convive diariamente com cortes compulsórios na geração, principalmente de fontes renováveis, quando a produção supera a capacidade de consumo ou de escoamento do sistema. O problema se agravou com a rápida expansão da geração solar distribuída, instalada em telhados e fazendas solares.

Durante o dia, a oferta solar dá um salto, mas cai rapidamente ao pôr do sol, obrigando o sistema a recorrer a outras fontes para reequilibrar oferta e demanda.

O excesso de geração pode levar a apagões e vem desafiando a gestão do ONS (Operador Nacional do Sistema). O sobe e desce na oferta também faz o preço ter forte oscilação no mercado livre, ambiente onde empresas compram e vendem sem depender da distribuidora local.

Os cortes, por sua vez, afetam o caixa de hidrelétricas, usinas eólicas e solares, que não são pagas quando não produzem. Os prejuízos já levaram a recuperações judiciais e paralisaram investimentos em energia limpa, isso num momento em que o mundo demanda mais dessas fontes.

Rosana lembra que, para dar segurança ao sistema diante do desequilíbrio entre oferta e demanda, o governo fez o Leilão de Reserva de Capacidade, que alimentou muita divergência.

Térmicas foram contratadas para garantir potência nos momentos de maior necessidade. Mas não houve atenção aos preços, transferindo custos para os consumidores. Segundo ela, estimativas apontam impacto de US$ 5 a US$ 10 por MWh (megawatt-hora) sobre o setor produtivo, o que ela classifica como gigante. “Quando se faz um leilão desse jeito, sem se preocupar com o impacto sobre a economia, com certeza você está fugindo do planejamento e atuando mais setorialmente do que qualquer outra coisa.”

Rosana diz que encarecer a energia é um contrassenso no momento em que o Brasil tenta usar suas renováveis como vantagem industrial — beneficiar minerais estratégicos, produzir fertilizantes, ganhar mercado com combustíveis de baixo carbono e receber grandes data centers.

Para a especialista, planejar o setor significa ir além de decidir a construção de usinas e linhas de transmissão. Representa estabelecer uma conexão entre o avanço dessa infraestrutura e as atividades que o Brasil quer priorizar para crescer e gerar empregos nas próximas décadas.

Ela cita como exemplo a exploração de novas reservas de petróleo. Os programas de governo dos candidatos que lideram em intenção de votos, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), por exemplo, defendem ampliar a exploração de petróleo e gás. Nenhum, porém, detalha como a renda gerada pelas novas reservas será usada para preparar a economia para um futuro menos dependente dos combustíveis fósseis.

A indústria é o setor que há mais tempo alerta para o descontrole nos preços da energia. Grandes consumidores de setores como cimento, alumínio, químicos, vidro e cerâmica sofrem com aumentos acima da inflação, diz o executivo Lucien Belmonte, presidente da Abividro (Associação Brasileira das Indústrias de Vidro).

A energia é um insumo relevante mesmo em produtos nos quais esse custo não é evidente. Representa 29,8% do preço final do pão francês e 18,7% do café moído. Em produtos mais intensivos em energia, o peso chega a 43,9% — caso dos revestimentos de pisos e paredes — e 31,6%, no cimento.

“Inúmeras cadeias estão se tornando inviáveis no Brasil por causa do custo da energia”, diz Belmonte, que também atua como porta-voz da União Pela Energia e coordenador do Fórum do Gás.

Belmonte aponta a evolução dos preços da energia no Brasil em relação a outros mercados como um sinal da perda de competitividade do país. De 2000 a junho de 2026, considerando valores em dólar, o preço da energia elétrica para o setor produtivo brasileiro acumulou alta de 327,7%. O valor é quase o dobro dos 145,3% de alta registrada nos Estados Unidos e um salto se comparado ao aumento de apenas 12,5% na União Europeia.

O presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, Luiz Eduardo Barata, defende ir além. Segundo ele, é necessária uma grande reforma do setor elétrico, que reveja toda a expansão do sistema e sua governança.

“A expansão se faz hoje por caneta, movimentos políticos, de pressão, não por instrumentos técnicos e econômicos”, afirma.

A mudança deveria começar pelo próprio critério usado para definir a política energética. “O foco da reforma tem que ser o consumidor, que paga a conta, não o interesse particular das empresas de cada setor, como tem sido feito”, diz o especialista.

A reforma também terá de preparar o sistema para as mudanças climáticas, afirma Barata.

Ele não prevê uma crise de abastecimento semelhante à de 2001. O país conta hoje com abundância de geração renovável e capacidade térmica. O risco, afirma, é outro: uma crise de sustentabilidade do setor, com empresas em dificuldades financeiras.

Lula e Flávio Bolsonaro prometem energia mais barata, expansão da transmissão, armazenamento e uso da matriz renovável para atrair investimentos.

As estratégias, porém, divergem em pontos importantes: Lula vincula a transição energética à política industrial e atribui papel relevante à Petrobras, enquanto Flávio propõe reduzir gradualmente a CDE (Conta de Desenvolvimento Energético) e os incentivos às fontes de energia, além de enfatizar investimento privado e segurança regulatória.