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Chapas gigantes: vidro jumbo é tendência na arquitetura mundial

Conhecidas como vidros jumbo, as chapas de grandes dimensões são uma tendência na arquitetura moderna mundial. Com aplicação ainda remota no Brasil, este segmento tem grande potencial de crescimento, abrindo uma oportunidade para têmperas e instalado

 Localizada na Antuérpia, na Bélgica, esta residência passou por um projeto de renovação criado pela BVBA – Architecture & Interior, que a transformou em um grande exemplo de arquitetura do século 21 sem perder o contato com o antigo, formando uma agradável mistura entre elementos históricos existentes no interior e uma fachada contemporânea que proporciona total interação com o jardim externo, como era desejo do cliente.  O objetivo do projeto foi criar uma conexão com o jardim e os três pavimentos. Para tal, a traseira do edifício foi quebrada, formando um tríplex com um único fechamento com vidros jumbos. Foram utilizados vidro Saint Gobain com 3 metros de largura e 6 metros de altura, pensando 1,5 tonelada por placa.


O vidro ganhou um destaque surpreendente na arquitetura moderna. Arquitetos e projetistas estão cada vez mais audaciosos em suas especificações. Com a necessidade de chapas maiores para tornar possível esses projetos que compreendem grandes vãos, criou-se uma tendência crescente da utilização de “chapas gigantes”, conhecidas como vidro jumbo, denominação para vidros com extensões superiores às convencionais. Normalmente, o tamanho padrão fabricado no Brasil é em torno de 2,4m x 3,21m. O vidro jumbo mais comumente aplicada é o de 6,00 m x 3,21m, podendo ser temperado e/ou laminado e passar por outros processos de beneficiamento, inclusive espelhação. As chapas têm 6, 8 ou 10mm de espessura, não menos que 6mm para não quebrar, nem mais que 10mm para não ficar pesada demais. Para se ter uma ideia, uma chapa de 10 mm pesa 500kg, e se passar por laminação atinge uma tonelada.
O vidro jumbo traz exuberância aos projetos e uma ampla vista sem interferências de recortes e esquadrias. Quanto menos recortes o vidro tiver, mais apresentável ele fica. “Uma obra com a utilização de chapa jumbo torna-se um destaque, tem característica de exclusividade, criatividade e sofisticação”, ressaltam Adilson Vargas, coordenador de vendas, e Monica Gomes, gerente de produção, ambos da AGC. “As possibilidades do vidro jumbo são inúmeras, fachadas, guarda-corpo, visor de piscina, vitrine de lojas, entre outras aplicações. Os arquitetos aderiram aos vidros jumbo e fazem verdadeiras artes nos projetos”, acrescenta Giovane Moreira, da Vidro Jumbo, empresa especializada no transporte deste tipo de produto.
No Brasil, o vidro jumbo surgiu na década de 90, com pequenos volumes, que foram crescendo com o tempo a medida que o mercado foi se adaptando e investindo em novos equipamentos e tecnologias. “Os vidros jumbos são muito mais utilizados que no passado e cada vez mais o mercado vai partir para o uso de vidros maiores. Os arquitetos estão abrindo mão dessa tecnologia para trazer esse charme adicional”, afirma Marcelo Maia da Tempermax.
 

 

As placas de vidro do fechamento desta residência na Bélgica possuem 1,5 tonelada cada e medem 3m x 6m
 
Otimização para a indústria e desenvolvimento do mercado
 
Na verdade, as fabricantes de vidro produzem grandes chapas, que em geral são recortadas em placas menores, pois grandes recortes reduzem perdas e aumentam produtividade. Com o passar o tempo, este conceito foi incorporado ainda mais para  melhorar as otimizações dos cortes.  Para tornar realidade projetos mais audaciosos e dar asas à imaginação de arquitetos, o mercado foi se desenvolvendo para trabalhar com essas “chapas gigantes”, pois para serem aplicadas em grandes dimensões necessitariam de processos de beneficiamento que conferem maior segurança, como o de têmpera e a laminação. Os fabricantes de equipamentos precisaram, então, evoluir para que maiores chapas de vidro pudessem ser produzidas e beneficiadas. Esta evolução consistiu basicamente no desenvolvimento de equipamentos de maiores capacidades, já que o sistema de trabalho permaneceu o mesmo.
“Por parte dos fabricantes de vidro float houve investimentos em sistemas de armazenagem e caminhões especiais e, por parte de clientes e fornecedores, a adaptação das linhas de processo para trabalharem com vidros jumbos. As linhas de produção precisam ser projetadas e ter capacidade de consumir as chapas de tamanho jumbo. Para produção de chapas jumbo, as fábricas de float precisam estar equipadas com stackers para grandes dimensões ou robôs que operam simultaneamente, em um sistema conhecido como ‘pickandfly’ e sistemas de armazenagem e  movimentação específicos. Na fabricação, o sistema é o mesmo se comparado aos tamanhos tradicionais (vidro flotado). A diferença está na etapa do corte, onde as chapas jumbo (a partir de 4,5m x 3,21m) após cortadas são encaminhadas para os equipamentos mais robustos que possuem capacidade para descarregá-las”, contam os especialistas da AGC.
Assim como a indústria teve que se desenvolver e criar equipamentos adequados, o setor de esquadrias também se adaptou e ampliou sua gama de produtos, pois, em muitos casos, para suportar com segurança grande placas de vidro são necessários caixilhos especiais. Benjamin Danwerth, diretor técnico da Schuco, explica que, normalmente, os vidros jumbos não precisam de fixação especifica se a fixação normal estiver devidamente feita. “O importante é que os perfis dos caixilhos de alumínio são estruturalmente aptos para receber um vidro de grandes dimensões, já que recebem uma carga total de vento bem maior do que um caixilho de dimensões medianas. Há várias formas de fixação de um vidro jumbo em um caixilho. Uma das mais indicadas é a fixação com baguete, pois não só permite a montagem completa da folha antes de colocar o vidro, mas também viabiliza a troca do vidro no caso de quebra sem ter que fabricar e montar uma folha completamente nova”.
 
“Para produção de chapas jumbo, as fábricas de float precisam estar equipadas com stackers para grandes dimensões ou robôs que operam simultaneamente, em um sistema conhecido como ‘pickandfly’ e sistemas de armazenagem e  movimentação específicos” – Adilson Vargas e Monica Gomes da  AGC
 

Museu Van Gogh
O Museu Van Gogh, em Amsterdã, na Holanda, proporciona uma experiência única, não só por conter o maior acervo do artista no mundo, mas por sua obra arquitetônica, que fez do vidro o protagonista, com grandes chapas que criaram uma imponente entrada. Construído em 1999, a reforma de seu edifício, focada no hall de entrada, foi projetada pelo escritório Hans van Heeswijk e entregue há cerca de um ano. Em formato de asa elíptica, a nova entrada agregou ao edifício mais de 800 m2 de área, e é considerada a maior estrutura arquitetônica de vidro de toda a Holanda. Composta por vigas e pilares de aço sustentando unidades de grandes chapas de vidro duplo, as hastes estruturais de vidro chegam a atingir 12 metros.
A cobertura tem como geometria principal uma concha sob um ângulo de 16,5 graus. As 30 hastes de vidro, únicas em seu comprimento, apresentam uma altura otimizada para acentuar o formato curvo da cobertura.  A fachada curva é composta por unidades de vidros insulados, laminados e curvados a frio, cobrindo uma área aproximada de 650 metros quadrados. O fechamento vertical recebeu 20 hastes estruturais de vidro, cada uma com seu próprio tamanho e formato. A maior delas atinge 9,4 metros de comprimento.
 

Composta por hastes estruturais de vidro que chegam a atingir 12 metros, estrutura do Museu Van Gogh é considerada a maior obra arquitetônica de vidro da Holanda
 

 
Com pé direito alto recoberto de vidro, a Rieteiland House, apesar de sua dimensão e exuberância, trata-se apenas de uma residência. A construção de três pavimentos conta com aproximadamente 270 m² e foi concebida em  IJburg, uma ilha artificial construída na baía de Amsterdã, na Holanda. A casa, projetada por Hans van Heeswijk, é provida de recursos tecnológicos e um elevado nível de luminosidade, resultado da fachada transparente, interiores em pé-direito alto e poucas paredes limitando a continuidade visual. A face totalmente envidraçada se abre para a baía enquanto a frente da casa, voltada para a rua, foi revestida com painéis de alumínio perfurado. Alguns destes painéis foram posicionados por trás dos panos de vidro e podem ser abertos por um sistema eletrônico, controlando a entrada de luz, calor e a privacidade do local. No segundo andar, parte do volume foi omitido, abrindo espaço para um terraço. A incrível experiência sensorial sentida pelos hóspedes é determinada pela transparência e amplitude obtida pelo átrio envidraçado com grandes chapas que posibilitam uma vista ampla para os três andares da residência, conectando salas de jantar, estar e a suíte principal.
 

 
Manipulação e transportes especiais
 
Um dos maiores desafios do vidro jumbo é a movimentação, pois ele necessita de transporte, manipulação e armazenagem dentro e fora da fabrica diferenciados. “A armazenagem necessita de várias pessoas e maquinário especial porque é desajeitado”, diz Marcelo Maia. “Toda movimentação deve ser feita com equipamentos específicos, fabricados exatamente para este fim. Isto evita qualquer interação manual no vidro, preservando a segurança dos trabalhadores. A armazenagem deve ser feita de forma apropriada, ou seja, deve-se utilizar barreiras e separadores. As instalações tem de ser apropriadas: a altura do galpão, portas de acesso, mesas de corte, ponte rolante, estoque,  etc”, explicam Adilson Vargas e Monica Gomes.
Em geral a movimentação de cargas é feita através dos cavaletes metálicos tipo L-frame, a movimentação de pacotes é feita através de pontes rolantes com dispositivos específico. O transporte rodoviário é feito com caminhões especiais, conhecidos como inloader, que transportam os cavaletes. Os pacotes de vidro jumbo são mais pesados, a partir de 4 toneladas, e contém mais chapas em comparação com o tamanhos padrões, isto é necessário  para garantir estabilidade e robustez aos pacotes.
 

Rieteiland House
 
Custo diferenciado e oportunidade de oferecer um serviço com alto valor agregado
 
O preço do vidro em si não é afetado, pois neste caso, a medida dele não interfere no preço. No entanto, os custos de fretes são diferentes em comparação com as medidas padrão, pois demandam veículos especiais, como já citado.  Quanto maior a distância, provavelmente maior o custo de frete do jumbo que pode impactar no custo final ao cliente.  Além disso, o investimento em equipamentos para sua manipulação, mão de obra especializada e uso de maquinário adequado para fazer seu beneficiamento, processos necessários por se tratar de um vidro pesado e extenso, encarecem o produto final em aproximadamente de 20 a 50%.
Obras com o vidro jumbo no tamanho original ainda são raras no Brasil, por questões de estrutura dos processadores e beneficiadores e demanda para justificar tais investimentos. Na Europa, por exemplo, o mercado de chapas jumbo é muito superior ao de placas menores, de acordo com os especialistas da AGC, mas essa é uma tendência que vem crescendo e uma oportunidade nova de um mercado para ser explorado, tanto para as beneficiadoras, pois este tipo de produto pede tratamentos de segurança que irão agregar valor, quanto para projetistas e instaladores que irão se diferenciar ao trazer abertura para a criatividade, resultando em projetos exclusivos, que necessitam mão de obra especializada e profissionais diferenciados.
 

“Prova disso é aumento significativo de temperadores que estão trocando de fornos para jumbo e aumentando as possibilidades para laminação de jumbo. É também um mercado muito promissor para vidraceiros. Assistimos ao longo do tempo os produtos serem os produtos do momento, foi assim com o box quando passou de um produto de luxo para um produto extremamente popular, observamos também com as sacadas o mesmo movimento,  o vidro jumbo se tornará em breve um produto de alto valor agregado e acessível a todos os vidraceiro  tanto  por conta das ofertas de serviços e produtos como pela  crescente demanda de projetos nessa área. É por ter de alto valor agregado, pela beleza que proporciona aos ambientes”, acrescenta  Giovane Moreira.
Esse mercado está em franco crescimento e como tudo com volume e popularidade acaba sim diminuindo os preços. O que acontece, muitas vezes, é que público final não tem conhecimento deste tipo de vidro e de sua beleza, por falta até de apresentação dos profissionais, já que a aceitação do custo-benefício de um produto com valor agredado é alta. E como uma coisa puxa a outra, com o aumento do consumo, o produto irá inclusive baratear. “A medida que os processos de nossos clientes  demandam maiores volumes de recorte, naturalmente o investimento em operações jumbo torna-se mais viável em termos de custo. Ao fazerem as contas, a medida que os clientes cresçam e processem mais vidros, verão que o investimento em operações jumbo traz muitos benefícios em termos de custos e produtividade,  fundamental para saúde dos negócios em qualquer empresa”, avaliam Vargas e Monica.
 
Átrio envidraçado com grandes chapas cria incrível experiência sensorial e possibilita uma vista ampla para os três andares da residência
Fonte: Vidro Impresso