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Logística reversa é desafio em regiões distantes dos grandes centros

Matéria publicada pelo site Cidade Bem Tratada, por Adriana Lampert, em 19 de maio
Ainda há dificuldade para se cumprir o acordo setorial para implementação da logística reversa de embalagens em grandes distâncias e pequenos centros de consumo.

O motivo é a inviabilidade econômica destes mercados, considerada o maior entrave para o avanço da Política Nacional de Resíduos Sólidos, na visão da gerente de Projetos de Embalagem da Associação Técnica Brasileira das Indústrias Automáticas de Vidro (Abividro), Ana Paula Bernardes. “Em regiões longe do Sul e Sudeste do País, a maior parte do volume de vidro coletado encalha, porque a venda deste material reciclado não paga os custos da logística reversa.”
Mas o problema não envolve apenas o vidro. De acordo com Ana Paula, em municípios distantes, na maioria das vezes, somente o alumínio (que é feito de bauxita e tem um valor atraente no mercado de reciclagem) consegue cobrir os custos embutidos, a partir do descarte, no processo de transformação em subproduto. “Vidro não tem competitividade pois é feito de areia, um material barato, enquanto o transporte é caro.” Para que haja um investimento no processo de conversão é preciso ter mercado, frisa Ana Paula. “Muitas vezes, isso não ocorre e, como ninguém quer arcar com os custos (que ainda envolvem o processo de beneficiamento), o produto não consegue chegar às indústrias de reciclagem, gerando um gargalo.”
Ana_Paula_Imagem1_cbt2015 (Custom)Enquanto não se encontra uma solução para o problema, todo resíduo sólido que encalha em cooperativas de catadores ou centrais de triagem de cidades distantes dos grandes centros, ou muito pequenas, acaba indo para os aterros sanitários. “As prefeituras estão tendo que absorver estes resíduos, o que gera um ônus público, além de não ocorrer destinação adequada dos produtos para aproveitamento”, detalha Ana Paula. A dirigente será debatedora na rodada de discussões entre atores da Política Nacional de Resíduos Sólidos, que acontece no próximo dia 20 de junho, dentro da programação do 5º Seminário Cidade Bem Tratada.
“É preciso completar a conta”, sentencia Ana Paula. Ela afirma que uma das formas de se viabilizar a logística reversa em cidades onde o consumo não é intenso e nas regiões muito afastadas dos grandes centros seria melhorar a qualidade da coleta seletiva para poder criar escala de material. Outra saída, segundo a gerente de Embalagens da Abividro, seria promover soluções integradas de logística de transporte. No entanto, ela admite que “é difícil” imaginar como essas iniciativas seriam implementadas, uma vez que não existe uma gerenciadora no Brasil. “Hoje em dia, a solução é dada pontualmente para cada empecilho que vai aparecendo”.
Ana_Paula_Imagem2_cbt2015 (Custom)Fato é que, apesar da legislação prever o custo compartilhado da logística reversa pelo setor privado, até agora não se chegou a um consenso, porque o documento não determina quem paga determinados custos, afirma a gerente da Abividro. “O acordo setorial é apenas um primeiro passo. Ainda é preciso evoluir neste tema”, pondera Ana Paula. Ela vislumbra que uma pressão regulatória deve surgir por parte das prefeituras, que têm dificuldades de operacionalizar a coleta seletiva e custear o seu sistema de saneamento. “Os cofres municipais já estão com problemas financeiros e, por outro lado, a grande maioria não consegue fazer a cobrança justa pela coleta de lixo”, destaca a dirigente, ao observar que a forma correta seria cobrar um valor para cada cidadão, de acordo com o volume de resíduos produzidos. “Quem tem pagado o ônus é o contribuinte de IPTU, enquanto quem deveria arcar com isso é o consumidor.”
Na opinião pessoal de Ana Paula, uma solução seria embutir o preço da logística reversa dos produtos nas gôndolas. “Passaria a ser uma escolha de quem compra, decidir se quer pagar ou não por isso.” Uma vez que o acordo setorial determina que é de responsabilidade do fabricante de embalagem escoar o material das cooperativas após sua triagem, e que o vidro tem uma limitação econômica, por ser muito barato, a Abividro busca alternativas para solucionar o problema no segmento. “Estamos propondo ratear os custos entre a cadeia de fabricação e distribuição do produto, para se chegar a uma equação razoável e competitiva para todos”, declara Ana Paula.